Trezentos e cincoenta

Jun 8, 2009 9:19pm

Dois trechos de “Ensaio para um Adeus Inesperado”, peça curta de Sérgio Roveri e Sérgio Ferrara em cartaz no SESC Vila Mariana até o fim de julho

A mãe diz:

“Em pouco tempo as coisas vão se ajeitar, eu disse. Eu sei que é algo estúpido de se dizer, mas foi a única coisa em que consegui pensar naquela hora, talvez por ter sido, também, a única coisa que ouvi das mais diferentes bocas quando meu filho morreu. As coisas já estão se ajeitando, ela respondeu. Só que… E então ela interrompeu. Só que o quê, eu perguntei. Acho que não há nada que você possa me dizer que vá me surpreender. Só que, ela então continuou, agora eu sinto mais frio. Não é estranho isso? Eu moro na praia e sinto frio todos os dias. Desde que o meu marido se foi, eu passei a dormir com cobertor, mesmo naquelas noites em que você sabe que o mundo inteiro está ardendo de calor. Eu já estou um pouco conformada com a morte dele, ela continuou. Mas por algum motivo o frio não passa. Eu estava enganada de novo: minha prima conseguiu me surpreender mais uma vez.”

O filho diz:

“A cena mais marcante da minha vida foi a imagem do colchão sem lençóis dos meus pais. Eu me aproximei dele e pude ver, como se estivesse em um sítio arqueológico, os contornos dos corpos do meu pai e da minha mãe impressos pacientemente naquele colchão ao longo de anos e anos de noites bem dormidas ou talvez nem tanto. Anos e anos de noites estáticas que produziram naquele colchão um ligeiro afundamento na altura dos ombros do meu pai, e um contorno mais suave no que seriam as pernas da minha mãe – a minha mãe que, descobri naquele dia, dormia de pernas dobradas. Eis aí a deformação causada por anos de amor, eu pensei. Imaginei o quanto de intimidade, cumplicidade ou renúncia deveria haver entre duas pessoas a ponto de elas permitirem que o tempo esculpisse os seus corpos em um colchão de molas cujo marca na etiqueta o mesmo tempo se encarregou de apagar. (…) Voltei para o meu quarto e desfiz a cama que a mesma empregada havia acabado de arrumar. Puxei os lençóis presos com elásticos, joguei também o travesseiro no chão e procurei demoradamente pelas minhas digitais em um colchão liso e impessoal. Não, eu ainda não havia deixado minha marca neste mundo. Me pareceu tudo tão cedo e ao mesmo tempo tão urgente e, de certa forma, tão assustadoramente vazio.”

“Ensaio para um Adeus Inesperado” é um monólogo duplo. No palco, mãe e filho, sentados lado a lado, intercalam suas falas sobre experiências cotidianas marcadas pela solidão: o filho se lembra de episódios de sua infância e adolescência e a mãe discorre principalmente sobre o que aconteceu no dia em que ele se matou e nos que vieram depois. Junto com “A Noite do Aquário”, essa peça compõe o espetáculo “Dueto da Solidão”. As duas escritas por Sérgio Roveri e dirigidas por Sérgio Ferrara. No elenco: Clara Carvalho (a mãe das duas peças), Chico Carvalho, Gustavo Haddad e Leonardo Miggiorin (o filho da primeira peça).

Um dos melhores textos do que eu tenho visto ultimamente, interpretações muito corretas (incrivelmente contida, a mãe só explode nas horas certas; os olhos do filho brilham com as recordações infantis e não são exageradamente tristes nos momentos de solidão), cenário e iluminação coerentes. Bem, quem sou eu pra avaliar tudo isso? Assistam!

Serviço:

“Dueto da solidão”

Texto: Sérgio Roveri

Direção: Sérgio Ferrara

Elenco: Clara Carvalho, Chico Carvalho, Gustavo Haddad e Leonardo Miggiorin

90 minutos

Sesc Vila Mariana

Quartas, às 20h30

Até 29/7

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