Trezentos e cincoenta
Só
O que mais me entreteu nos 60 minutos de “Só” foi a cenografia da Laura Vinci. Enquanto João Miguel monologava (com S’s que às vezes uniam as palavras – e eu demorei pra entender que ele não estava falando “espaços”, estava falando “os passos”), eu fiquei prestando atenção naquele chão muito branco, que eu primeiro pensei ser de borracha; os postes, antes dos tubos brancos de luz se acenderem; os recortes no chão ladrilhado.
Depois as luzes se acenderam – e eu vi que eram luzes. O João Miguel correu e deslocou uma pedra de mármore – e eu vi que eram pedras de mármore. Ele volta para o chão recortado e faz barulho de água – e eu vi que brotava água do chão.
Aí vieram as engenhocas que quase não faziam barulho. Mas eu me concentrei naquele zumbidinho e fiquei observando a lâmpada vir mais pra frente, mais pra frente, enquanto o chão ficava cada vez mais cheio d’água. No final, quando ele anda de costas, eu reparei nos mármores que estavam acumulados lá atrás, e pensei “ih, será que ele vai pisar e vai sangrar vermelho no branco?”.
Não sangrou. Não achei ruim tudo que não fosse o cenário, mas o texto é difícil demais, poético demais para ser falado, acho. Deve ser bonito de ver no papel ou ouvido com mais pausas. Acho que foi isso: o monólogo não tem tantos espaços quanto o cenário.
Serviço:
“Só”
Direção: Alvise Camozzi
Texto: Letizia Russo
Elenco: João Miguel
Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista – 5º andar
Até 14/6