Trezentos e cincoenta
Em “Memória do Mundo”, peça em cartaz no Viga espaço cênico até 28 de junho, João Paulo Lorenzon dá vida ao texto que começou como uma seleção de seus trechos de Borges. O ator diz, no programa do espetáculo, que esse esboço “passou por muitos olhos (…) até se transformar em um texto que tenta, timidamente, explorar as atmosferas do escritor, tocar em algumas de suas questões, mas é, no fundo, um elogio à memória”.
De fato: durante os cinquenta minutos, ele se remexe entre memórias de infância de Borges, diálogo com uma tal de Beatriz, morta, comentários sobre cegueira, cores e o Aleph. Nós, o público, acompanhamos sentados em volta e em cima de um quadrado de pedrinhas brancas, encostados em vidros escuros que, vez ou outras, deixam ver o que está por trás.
(os rostos à minha frente eu tentei evitar em alguns momentos, principalmente quando alguns riam do transe em que o personagem entra)
A iluminação foi indicada ao Prêmio Shell e dois momentos merecem atenção: na lembrança da biblioteca do pai, quando passava a mão nas lombadas dos livros, e no final, quando vê uma máscara sua ser queimada por detrás de um dos vidros.
Serviço:
“MEMÓRIA DO MUNDO”
Inspirado no universo de Jorge Luis Borges
Direção: Élcio Nogueira Seixas
Texto: João Paulo Lorenzo
Quando: até 28 de junho (sábados, 19h e 21h, e domingos, 18h e 20h)
Onde: Viga espaço cênico (Rua Capote Valente, 1323)
Quanto: R$30,00
Dois trechos de “Ensaio para um Adeus Inesperado”, peça curta de Sérgio Roveri e Sérgio Ferrara em cartaz no SESC Vila Mariana até o fim de julho
A mãe diz:
“Em pouco tempo as coisas vão se ajeitar, eu disse. Eu sei que é algo estúpido de se dizer, mas foi a única coisa em que consegui pensar naquela hora, talvez por ter sido, também, a única coisa que ouvi das mais diferentes bocas quando meu filho morreu. As coisas já estão se ajeitando, ela respondeu. Só que… E então ela interrompeu. Só que o quê, eu perguntei. Acho que não há nada que você possa me dizer que vá me surpreender. Só que, ela então continuou, agora eu sinto mais frio. Não é estranho isso? Eu moro na praia e sinto frio todos os dias. Desde que o meu marido se foi, eu passei a dormir com cobertor, mesmo naquelas noites em que você sabe que o mundo inteiro está ardendo de calor. Eu já estou um pouco conformada com a morte dele, ela continuou. Mas por algum motivo o frio não passa. Eu estava enganada de novo: minha prima conseguiu me surpreender mais uma vez.”
O filho diz:
“A cena mais marcante da minha vida foi a imagem do colchão sem lençóis dos meus pais. Eu me aproximei dele e pude ver, como se estivesse em um sítio arqueológico, os contornos dos corpos do meu pai e da minha mãe impressos pacientemente naquele colchão ao longo de anos e anos de noites bem dormidas ou talvez nem tanto. Anos e anos de noites estáticas que produziram naquele colchão um ligeiro afundamento na altura dos ombros do meu pai, e um contorno mais suave no que seriam as pernas da minha mãe – a minha mãe que, descobri naquele dia, dormia de pernas dobradas. Eis aí a deformação causada por anos de amor, eu pensei. Imaginei o quanto de intimidade, cumplicidade ou renúncia deveria haver entre duas pessoas a ponto de elas permitirem que o tempo esculpisse os seus corpos em um colchão de molas cujo marca na etiqueta o mesmo tempo se encarregou de apagar. (…) Voltei para o meu quarto e desfiz a cama que a mesma empregada havia acabado de arrumar. Puxei os lençóis presos com elásticos, joguei também o travesseiro no chão e procurei demoradamente pelas minhas digitais em um colchão liso e impessoal. Não, eu ainda não havia deixado minha marca neste mundo. Me pareceu tudo tão cedo e ao mesmo tempo tão urgente e, de certa forma, tão assustadoramente vazio.”
“Ensaio para um Adeus Inesperado” é um monólogo duplo. No palco, mãe e filho, sentados lado a lado, intercalam suas falas sobre experiências cotidianas marcadas pela solidão: o filho se lembra de episódios de sua infância e adolescência e a mãe discorre principalmente sobre o que aconteceu no dia em que ele se matou e nos que vieram depois. Junto com “A Noite do Aquário”, essa peça compõe o espetáculo “Dueto da Solidão”. As duas escritas por Sérgio Roveri e dirigidas por Sérgio Ferrara. No elenco: Clara Carvalho (a mãe das duas peças), Chico Carvalho, Gustavo Haddad e Leonardo Miggiorin (o filho da primeira peça).
Um dos melhores textos do que eu tenho visto ultimamente, interpretações muito corretas (incrivelmente contida, a mãe só explode nas horas certas; os olhos do filho brilham com as recordações infantis e não são exageradamente tristes nos momentos de solidão), cenário e iluminação coerentes. Bem, quem sou eu pra avaliar tudo isso? Assistam!
Serviço:
“Dueto da solidão”
Texto: Sérgio Roveri
Direção: Sérgio Ferrara
Elenco: Clara Carvalho, Chico Carvalho, Gustavo Haddad e Leonardo Miggiorin
90 minutos
Sesc Vila Mariana
Quartas, às 20h30
Até 29/7
Budapeste - 2
Sabe o que é? O livro é como letra cursiva: tudo tão bem encadeado que você lê até o ponto final. E o filme é cheio de vírgulas, e parece que o sujeito não concorda com o verbo quando você termina. O filme ainda está aprendendo a escrever.
Serviço:
“Budapeste”
Direção: Walter Carvalho
Baseado no livro homônimo de Chico Buarque
Elenco: Leonardo Medeiros, Gabriella Hámori e Giovanna Antonelli
Só
O que mais me entreteu nos 60 minutos de “Só” foi a cenografia da Laura Vinci. Enquanto João Miguel monologava (com S’s que às vezes uniam as palavras – e eu demorei pra entender que ele não estava falando “espaços”, estava falando “os passos”), eu fiquei prestando atenção naquele chão muito branco, que eu primeiro pensei ser de borracha; os postes, antes dos tubos brancos de luz se acenderem; os recortes no chão ladrilhado.
Depois as luzes se acenderam – e eu vi que eram luzes. O João Miguel correu e deslocou uma pedra de mármore – e eu vi que eram pedras de mármore. Ele volta para o chão recortado e faz barulho de água – e eu vi que brotava água do chão.
Aí vieram as engenhocas que quase não faziam barulho. Mas eu me concentrei naquele zumbidinho e fiquei observando a lâmpada vir mais pra frente, mais pra frente, enquanto o chão ficava cada vez mais cheio d’água. No final, quando ele anda de costas, eu reparei nos mármores que estavam acumulados lá atrás, e pensei “ih, será que ele vai pisar e vai sangrar vermelho no branco?”.
Não sangrou. Não achei ruim tudo que não fosse o cenário, mas o texto é difícil demais, poético demais para ser falado, acho. Deve ser bonito de ver no papel ou ouvido com mais pausas. Acho que foi isso: o monólogo não tem tantos espaços quanto o cenário.
Serviço:
“Só”
Direção: Alvise Camozzi
Texto: Letizia Russo
Elenco: João Miguel
Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista – 5º andar
Até 14/6
A primeira vez que eu fui dar em Budapeste
A melhor parte de “Budapeste”, filme baseado no livro homônimo do Chico, é quando ele aparece. Não, não por causa dos olhos ardósia. A cara enfadonha do Leonardo-eu-não-sinto-nada-além-de-melancolia-Medeiros sai do foco de atenção para dar lugar à realidade: as mulheres da sala de projeção suspiram, batem palmas e dá até pra ouvir “ai-que-lindo”. Um pouco de vida.
Girassóis de Van Gogh
Alguém efetivamente presta atenção nos post-its que cola em volta do computador?
Da democratização da arte
“Você gosta de teatro?” e “Você gosta de poesia?” eram até outro dia as abordagens que mais me constrangiam. Se dizia a verdade aos que me abordavam – não digo mais -, passava o tempo todo do discurso em prol da arte elaborando uma desculpa para me desvencilhar da ladainha. Na Flip é particularmente insuportável, uma vez que o pressuposto de estar lá é gostar de literatura, e a pergunta da poesia se torna automaticamente supérflua, não dá nem para mentir. No último final de semana, mocinhos empunhando seus papéis disparavam: “Você lê autores vivos?”. Passei reto para resmungar sozinha que não, só os mortos, que não me importunam.